Universidade lança mestrado em indústria criativa

Em agosto último, a Universidade Feevale, localizada na cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, recebeu aprovação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para realizar o primeiro mestrado em Indústria Criativa do Brasil. Com duração de dois anos, a formação tem foco na interdisciplinaridade. É voltada a “criativos e gestores”, como afirma Marsal Avila, coordenador do curso na Feevale. Serão duas grandes linhas de pesquisa: “conteúdos criativos” e “gestão e inovação”. A ideia é que os interessados, vindos dos mais diversos cursos de graduação, transitem entre as áreas, troquem conhecimento e, se possível, desenvolvam negócios. “Estamos preocupados em alavancar e ensinar nossa capacidade de criar arranjos produtivos. Realmente preocupados com a indústria’, explica Avila. A criação do mestrado é resultado de uma demanda crescente de formação na área e também um desdobramento do cenário que a entidade observa há, pelo menos, oito anos, quando foi criado o curso superior de Tecnologia de Jogos Digitais. “Temos uma produção de cerca de 100 jogos por ano. Esperamos que o mestrado também sirva para transformar potencialidades em realidade”, declara. O processo seletivo para a primeira turma será concluído em duas semanas. No momento, o corpo docente se prepara para receber os alunos ávidos para entender melhor sobre uma área tão diversa quanto rica em oportunidades. Marsal Avila falou ao Empreendedores Criativos sobre o que espera para o primeiro grupo de gestores e criativos que passarão pelo mestrado da Feevale. Histórico – “O mestrado foi criado a partir de uma demanda e do nosso contato muito próximo com os atores dos vários segmentos criativos. Começamos efetivamente a partir das experiências com os jogos digitais, que se tornou um articulador e um agregador de profissionais em busca de caminhos para a sustentabilidade/viabilidade econômica. A partir desses contatos, acabamos reunindo uma série de professores, pesquisadores e estudantes. O que percebemos é que a maior parte das empresas criativas tem um formato específico: pessoas que sabem criar (conteúdos, produtos, tecnologias novas), são desenvolvedores de uma maneira geral (engenheiros, arquitetos, comunicadores, designers, cineastas), mas na prática eles têm pouca ou muito pouca experiência em gestão. Abrem empresas que acabam não chegando ao ponto de maturação ou sequer de regularização em alguns casos. Começamos também a procurar na própria universidade investidores, empresários, gente de negócios que via nesse nicho das indústrias criativas uma grande oportunidade. Eles veem os números acontecendo e ficam curiosos em saber como funciona. Foi aí que descobrimos o outro lado da moeda: para eles, mesmo com recursos e experiência em gestão, era complicado manter o diálogo com os criativos. Entendemos naquele momento que esses dois mundos precisavam se aproximar. O mestrado nasce dessa necessidade.” Expectativas – “Fechamos a seleção em duas semanas. As aulas começam em fevereiro do próximo ano. É um curso de dois anos, tem disciplinas obrigatórias e outras optativas. Temos duas categorias de candidatos. A primeira é formada por candidatos que vem da área de gestão – advogados, administradores, contadores, etc. E outro grande grupo é o que chamamos de criativos, que vem da comunicação, do turismo, das engenharias, dos setores da cultura. A nossa intenção é pegar os caras que vem de um dos lados e fazer com que eles tenham contato intenso com o pessoal da outra área, professores e os próprios alunos, para que eles possam fazer arranjos ali dentro, para que a gente force essa entrada deles em um mundo que eles não dominam. O curso perde sentido se não houver essa troca.” Seleção – “Além de exigir a graduação completa, outro critério de seleção é a experiência profissional. É um mestrado profissional que está preocupado em colocar resultados no mercado. Queremos estudar, desenvolver e prototipar negócios para que pessoas não saiam daqui só com dissertações, mas com planos de negócios que possam ser de fato aplicados, que possam levantar fundos e gerar valor econômico. Temos a experiência acadêmica e a experiência profissional. São esses os dois critérios avaliados.” Intercâmbio – “Temos alguns dispositivos para que a troca aconteça. O mestrando vai ter um orientador cujo trabalho é justamente fazer o aluno imergir em outras áreas. Haverá também a prática de coorientação – se você tem um coordenador que é da área de gestão, seu coorientador será das áreas criativas e vice-versa. São diversos dispositivos que incitam essa integração. Você vai ter na mesma sala games designers, cineastas, administradores, gerentes, planejadores. Fora isso, temos nosso direcionamento de fazer com que os alunos criem arranjos produtivos entre si ali dentro, que possam se transformar em protótipos, em planos de negócios e mais tarde em empresas.” Disciplinas – “Em conteúdos criativos, os participantes terão um overview de coisas que a indústria criativa está propondo hoje enquanto solução de comunicação, de design, de tecnologia e de negócios. Como estão contando histórias e distribuindo conteúdos atualmente. Do outro lado, na gestão, a gente tem indústria criativa, planejamento de gestão organizacional, especialmente para os criativos terem esse primeiro grande contato com as técnicas e processos administrativos. Abordagem – “Gosto de citar o Silvio Miera: estamos preocupados em gerar nota fiscal. Não nos propusemos a ser um mestrado em economia criativa e em economia tampouco. Estamos preocupados em alavancar e ensinar nossa capacidade de criar arranjos produtivos, realmente preocupados com a indústria. Como um autor pode fazer com que o livro dele consiga gerar valor econômico? Como um game designer consegue distribuir um jogo dele de uma forma viável? É com isso que estamos preocupados. Por isso, falamos em indústrias criativas. São arranjos que estão buscando valor econômico.” Diversidade das cadeias produtivas – “Existem dois modos de olhar para a questão. A primeira é que nós temos um corpo de professores que busca dar conta disso. Evidente, que o número de professores é limitado e suas experiências também, então fatalmente vai acontecer de surgir pessoas de áreas que a gente não domina. Não vemos isso como um problema já que é essa uma prática do mestrado. Sempre haverá um aluno que trará algo novo, isso é muito positivo e faz parte da dinâmica. A outra é que vai chegar momentos em que não saberemos responder, porque ninguém sabe. A quantidade de arranjos produtivos possíveis na indústria criativa são inúmeras não há como cobrir tudo. Vai haver momentos em que vamos ter que criar dispositivos e criar maneiras. É aí que a ciência vai realmente acontecer e os negócios vão ser gerados. Dos poucos mestrados em indústrias criativas que existem no mundo, essa é uma tônica. O programa busca estar preparado para coisa que ele não tem como prever. Como isso vai se dar, só saberemos daqui a dois anos.”