Gravadoras no mercado digital

Com a chegada da internet, o fim das gravadoras foi previsto por muita gente. E, enquanto muitos se lamentavam pela tragédia da indústria fonográfica, outros enxergaram potencial em um novo mercado. O período de adaptações não foi fácil, mas em 2011, após 13 anos em queda, o setor de música voltou a crescer, justamente devido aos novos modelos de negócio criados para o mercado digital. A Sony Music é uma gravadora global e líder no Brasil e na América Latina, com 47 escritórios espalhados por todo o mundo. A repórter Patricia Lima, do site Cultura e Mercado, conversou com Maria Clara Guimarães, supervisora do departamento de Digital e Novos Negócios da empresa, para saber como a Sony se adaptou ao novo cenário e quais são as perspectivas atuais para este mercado. Cultura e Mercado – Quais são os modelos de negócio dentro do mercado digital que a Sony utiliza no Brasil? Maria Clara Magalhães – Existem vários tipos de modelos de negócios no mercado de música digital e a Sony tem diversos parceiros, atuando em praticamente todos os modelos. Hoje, os brasileiros têm muitas opções para consumir música legalmente nos seus computadores, celulares, tablets e outros aparelhos. O modelo mais comum e de fácil entendimento para o consumidor é o de venda de música a la carte em lojas como o iTunes e através das operadoras, como toques de celular. Porém, existem também os modelos de streaming pagos pelos usuários ou por publicidade. Os usuários podem assinar um serviço digital, pagando uma mensalidade para ter acesso a milhares de músicas. No valor da assinatura podem montar e compartilhar suas playlists e alguns planos oferecem também a funcionalidade do cachê offline – ou seja, o cliente pode ouvir as músicas mesmo sem estar conectado já que estas ficam armazenadas (em cachê) nos seus aparelhos móveis (normalmente via app). Nos modelos pagos por publicidade, como Vevo, Youtube, Rádio UOL, Kboing, o usuário tem acesso gratuito, porém limitado ao conteúdo e quem paga a conta são as empresas anunciantes. Além disso, existe o Ringback tone (som de chamada de celular), que é um modelo que cresceu muito nos últimos anos em parceria com operadoras de celular. Este é outro mercado que está começando a se difundir no Brasil. Acreditamos muito no potencial deste mercado e também no VOD (Video on Demand) e sVOD (Subscription Video on Demand) de shows completos e videoclipes. Outra frente forte de trabalho é a de projetos especiais (conteúdo patrocinado por marcas). Este também é um ótimo tipo de modelo de negócio, pois os usuários recebem os conteúdos gratuitamente, oferecidos por uma marca; em contrapartida, a marca está cativando os consumidores e se associando a emoção e força da música. Claro que a indústria também ganha já que existe remuneração total dos direitos. CeM – Esse mercado digital pode crescer mais? MCM – É possível observar uma forte taxa de crescimento nos últimos anos, mas ainda está longe de alcançar o seu limite. Em alguns países como os Estados Unidos, por exemplo, a receita digital já é maior que a receita com a venda de produtos físicos. Ainda assim, continua crescendo. No Brasil, esta é a tendência. Temos visto nascer cada vez mais modelos de negócios sustentáveis que expandem o potencial deste mercado. O fato é que o mercado nacional está bastante aquecido, despertando o interesse de diversas empresas que entraram no Brasil nos últimos anos e expandiram a oferta de serviços que proporcionam um grande catálogo de música, com qualidade, ótima experiência de audição e excelente custo benefício. Estamos inclusive vendo uma mudança no comportamento do consumidor no Brasil e verificando um grande aumento no consumo de música legalizada. O que demonstra o potencial do interesse pelos serviços de música digital, já que o brasileiro nunca deixou de consumir música. Outro ponto que nos deixa bastante otimistas é a entrada de diversos players internacionais, que devem desembarcar em breve no mercado brasileiro. CeM – Qual porcentagem da receita vem do mercado digital? MCM – A porcentagem da receita que vem do digital, neste ano, já chega a 45% no Brasil. CeM – Na sua opinião, o que leva as pessoas a pagarem por um conteúdo que podem ter de graça? MCM – Os grandes fãs dos artistas entendem que consumir música pirata prejudica e desvaloriza o trabalho de seu ídolo, mas o que tem realmente mudado o comportamento do consumidor é a oferta crescente de serviços legalizados com uma interface amigável, boa usabilidade, e que tornam cada vez mais prazerosa a experiência de ouvir as músicas que você curte em qualquer lugar (PC, Tablet, TV, Celular), integrando com o compartilhamento nas redes sociais, além da possibilidade de ter suas playlists com você onde estiver e sem ter que disponibilizar um grande espaço para armazenamento (o conceito de música na nuvem). Por terem uma diversidade muito grande de músicas e gêneros, estes serviços tem sido importantes para que as pessoas conheçam e se tonem fãs de novas músicas / artistas que não conheciam por meio de recomendações, seguindo amigos e compartilhando via redes sociais. Não temos dúvidas que mais e mais pessoas vão perceber que não vale a pena consumir música ilegal, em serviços ruins, de baixa qualidade e que traz diversos riscos. Os serviços legalizados tendem a ficar cada dia melhores pois existe um grande investimento em pesquisa e desenvolvimento, ao passo que serviços não legalizados trazem incertezas que não justificam estes investimentos. O custo-benefício e as alternativas de compra de música legal vêm jogando cada vez mais em prol do usuário que pode consumir muita música por preços justos, com qualidade e garantindo a remuneração de toda a cadeia da música, incluindo artistas e autores. Além disso, não podemos nos esquecer dos serviços que oferecem música gratuita ao usuário, mas que são patrocinados por alguma marca ou por anúncios de publicidade, remunerando toda a cadeia e ao mesmo tempo sendo uma alternativa legal à pirataria. CeM – Qual a relação da Sony com as empresas de streaming de música atuantes no país? MCM – A Sony faz parceria com estas empresas oferecendo seu catálogo de mais de 500 mil músicas; em troca, recebe um percentual da receita arrecadada pelas empresas. Tanto nos serviços pagos pelo consumidor quanto nos serviços baseados em publicidade existe remuneração para a gravadora (calcada em modelos de negócios pré-acordados) e a gravadora, por sua vez, paga os royalties dos contratos específicos de cada artista. Como muitos destes serviços são oferecidos no modelo ilimitado (all you can listen), é necessário fazer um cálculo de pro-rata baseado na execução de cada música para definir estes repasses. CeM – Uma pesquisa recente da Nielsen/Billboard sobre o mercado fonográfico americano mostrou que, no primeiro semestre de 2012, a venda de discos de vinil cresceu 14,2% em comparação com o mesmo período de 2011. Apenas os álbuns digitais (13,8%) chegaram perto dessa taxa — CDs tiveram uma queda de 11,3%. Os números no Brasil foram similares? Como está a comparação entre mercado de cds, vinis e albúns digitais? MCM – O mercado de venda física caiu um pouco no primeiro semestre deste ano (2013), comparado com o mesmo período do ano passado, mas o mercado digital cresceu 19% neste período. CeM – Na sua opinião, qual a tendência do consumo brasileiro para os próximos anos? MCM – Acreditamos que a receita digital vai superar a física nos próximos anos, como já aconteceu nos Estados Unidos. Além disso, haverá um grande crescimento no número de assinantes de serviços de streaming devido, principalmente, à entrada de grandes players internacionais, ao custo-benefício para os usuários e à disseminação do serviço entre os consumidores de música já que grande parte deles tem um forte apelo social (compartilhamento, recomendações, seguidores de playlists, etc). Outros modelos que vêm crescendo bastante e que são tendência para os próximos anos são: modelos baseados em publicidade, serviços cloudbased com scan and match, vídeo on demand, entre outros.